Na Avenida Lisir Eva...

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Uma Rua Deserta e Anjos de Natal


Uma rua deserta e anjos de natal é o que restou? Madrugada de 30 de novembro e eu não tenho pensamentos. Queria que as palavras fossem mágicas, mas palavras são palavras e pessoas são humanas, as palavras não se arrancarão das páginas e viajarão pelo passado e pela distância a fim de reconquistar e recuperar o que perdi.
                Uma rua deserta na madrugada e anjos de natal que iluminam um pedaço do mundo. Natal, uma data que ilumina um pedaço do ano, uma data que salva, sempre minha data favorita, mas mal posso ouvir essa palavra e a repito, e a repito.
                E os pensamentos são opacos, como a lua desse 30 de novembro e a rua deserta com seus anjos de natal. Onde antes passavam os anjos de Natália.
                Onde antes passavam tantos sonhos, onde hoje o que restou é uma rua deserta e seus anjos de natal. O antes... O antes era a grama, a lua, as estrelas e a distância éramos nós, distantes dos problemas do mundo, sentados no gramado do campus. O antes era o beijo ao som ao vivo de Lenine, como em filmes, como trilha sonora, como protagonistas, como o par romântico, como o que levaria ao felizes para sempre. Antes eram os melhores dias, diria o melhor ano na universidade. Antes era a partitura deixada em seu para-brisas, o jantar em sua casa, a comemoração por ter passado no mestrado e os beijos, toques e abraços pela madrugada, quando evitávamos o sono e eu desejava que o tempo não passasse ou, se passasse, que fosse ali, daquele modo, nós dois e os bancos do carro.
                Hoje a música são os leves toques de Debussy, Beethoven e Chopin no piano triste na internet. Hoje é a despedida, hoje é apenas uma rua deserta, os anjos de natal e as lembranças. Lembranças da partida de quem mais me amou, lembranças da despedida de quem amei... E fica assim, opaco ou vazio, como uma rua deserta com a lua escondida. Sem rumo, com seus amigos se dividindo rumo a vários continentes, sem emprego, sem saber se voltarei para casa ou terei uma vida corrida em uma grande cidade ou em uma cidade qualquer liderando pessoas com vidas corridas para que um dia liderem pessoas com vidas corridas até que só haja corridas e não haja vidas.
                Mas veja que a ciência me chama e as palavras querem ser escritas, estou na capa do jornal. Meu texto na capa do jornal e outros resultados que me orgulham, mais, bem mais que o diploma, o que levo da universidade são comentários como “orgulho de conhecer essa figura”, parabéns e tantos elogios. É o que se leva, as recordações, de palavras, de toques, de sensações, de sentimentos, de vitórias, de derrotas, de alegrias, de tudo, as recordações. Ademais, é uma rua deserta, sem saber para onde ir, o renascimento e os anjos. Uma rua deserta e os anjos de natal.


Sobre muitas coisas da vida. Vida, dias perfeitos.



Começo a contar esta história em uma tarde de dia útil, foi uma terça ou quarta-feira há algumas semanas, quando caminhava em direção ao bloco de aulas da Engenharia de Produção e ali pela praça no centro da universidade, em um estande fixo de madeira, crianças vendiam porta canetas e clipes e panos de prato, se bem me lembro.
As vendas são destinadas à manutenção de um projeto social do qual essas crianças participam aqui mesmo na universidade, não muito longe de onde me encontro esta noite a escrever este relato. Comprei então um porta canetas e o deixei guardado, ainda fechado, dentro de meu guarda-roupa, em uma folha de plástico transparente decorado.
Então se seguiram os dias, trabalhos escolares, provas, pesquisas para o TCC, iniciação científica e, em especial, destaco nossa apresentação pelo nosso grupo de teatro, cujos ensaios ocorrem no salão cultural do nosso centro acadêmico – embora o grupo não se restrinja a estudantes desta instituição.
Em um dos encontros no semestre passado, falávamos por algum motivo sobre dança e uma garota disse ter vontade de dançar. Então, comentei que ali no centro acadêmico havia cursos de danças, mas eu não participava por não ter um par. Ela lançou o convite e concordei; porém isso foi deixado para depois das férias, que se aproximavam após as corridas semanas de provas de final de semestre.
As aulas voltaram em agosto, neste mês fui com um amigo a uma festa junina aqui na arquitetura e encontramos com o pessoal do teatro, donde formamos dois casais para as aulas de dança de salão. Foi que minha parceira teve de faltar – após um pedido de desculpas – e meu amigo desistiu do curso, pois era no horário de almoço. Deste modo, aconteceu de eu trocar definitivamente de par para a aula de dança.
Dança é uma bela arte, mais belas são as danças circulares e as de casais, como valsa, bolero, ou mesmo forró, samba de gafieira e salsa, mais comuns na cidade. Bela não para ser o único homem a saber dançar e aproveitar de todas as meninas, mas pela arte do encanto, do encantar, pelo prazer em acertar, em entender um mundo diferente do que estamos acostumados.
Dancei uma tarde, no ano passado, assim, de repente; durante um intervalo dos ensaios, alguém colocou My Girl de The Temptations – aquela música do filme “meu primeiro amor” – Foi com a mesma garota que quase se tornou minha parceira de danças aulas. A mesma que, no final do ano passado, em seu aniversário, fui escrever alguma mensagem em seu facebook e me dei conta de como ela possuía a rara combinação de beleza, inteligência, ser divertida, humilde e cativante – curioso que no último final de semana assistia a um filme em que esta era mais ou menos a frase que o protagonista dizia a sua esposa, só agora me dei conta disso.
Com essa mesma garota, passei algumas noites, dias inteiros, mesmo madrugadas a ensaiarmos para a apresentação ocorrida em setembro, há umas duas semanas e meia. Estava quase todo o grupo, mas como a peça era formada de muitas cenas individuais, fiquei a ensaiar com ela nas salas ao lado.
E ela dançava, livre, opunha-se aos demais personagens da peça, pessoas que não se tocavam, que ficavam imersas, mergulhadas em um sistema de egoísmo e consumismo, o qual a peça criticava. Ela dançava, bela, com suas roupas finas e leves.
Em um ensaio, um spot de luz acendeu antecipadamente sobre nós, ficamos – eu, pelo menos – imóveis, como quem é pego no flagra fazendo alguma coisa que não poderia ser vista.
Esse é parte do contexto da história que venho contar, uma parte bem pequena, muito resumida, sem citar o coração de papel que a entreguei na madrugada,  as conversas que tivemos em seu carro na volta dos ensaios – mesmo que eu morasse a poucos metros dali, no alojamento da universidade – do que falamos e nos conhecemos... Do que gostamos falarei um pouco e então prossigo a contar.
Gosto de filmes, de histórias de filmes, de cenários de filmes, de quando as coisas em nossa vida acontecem como nos filmes; como aqui na universidade, quando chovem flores e estamos a caminhar, quando faz frio e usamos casacos, quando vencemos, quando vemos o trem, quando viajamos e olhamos o horizonte pelo caminho. Ela gosta da lua, de ver a lua em sua pequena cidade do interior, onde as nuvens não refletem as luzes de uma grande cidade, deixando o céu escuro, misterioso e encantador.
Apresentamos então a peça, fomos muito parabenizados, embora eu estivesse pessimista devido ao pouco tempo de ensaios e de, particularmente, estar cheio de afazeres na graduação e meu personagem não ser tão engraçado como o do ano anterior.
Atendi seu telefone quando sua mãe ligou, sentia-me mais próximo e apaixonado. Gostaria de dizer, de beijá-la, tive a paciência correta.
De lá fui fazer minhas malas e os encontrei – o grupo – mais tarde na lanchonete. Partiria pela madrugada em direção à capital, para minha primeira dinâmica de grupo em processo seletivo de estágio. Então esperaria acordado, porém ainda era cedo quando deixaram a lanchonete, exceto ela, eu e seus amigos. E, então, foram também, fiz questão de que não precisariam me esperar.
Fui à capital, sozinho, mas um amigo me encontraria para levar-me da estação ao prédio. Metrô, bairros nobres, prédios, roupa social, café, vitamina, dinâmica de grupo, metrô, foto no MASP, depois lanche e outra vitamina, metrô, casa.
No domingo ela me escreveu, em meu mural no facebook, uma apresentação, como seria minha apresentação em uma empresa, um enorme parágrafo de elogios. Não soube como responder, disse que o faria pessoalmente e, após outro ensaio em uma noite, conversamos por certo tempo, poderíamos ter nos despedido com um beijo, não tomei a iniciativa.
No outro dia, mais uma vez partira eu rumo à capital, outra dinâmica, em bairro próximo ao de sete dias antes. Camisa emprestada, deixara as minhas em casa e o convite fora de repente. Desta vez fui com um amigo que também participara da dinâmica, aliás, muito mais organizada, onde tivemos muito mais liberdade e muito podemos aprender. Café, foto, almoço no shopping, trem, metrôs – em um deles, a campainha soou enquanto meu amigo estava na porta, puxei-o um instante antes da porta fechar. Mais um dia na capital com histórias a se contar.
Retorno, fim de semana em casa, visita à empresa de meu pai no dia da família, que começara com uma palestra sobre conhecer uns aos outros, auto-estima ou... bem, o dia começara antes, era dia de eleição, decepção com os rumos políticos de uma cidade que, embora grande e supostamente desenvolvida, está marcada desde sempre pelo coronelismo. Uma revolta que me desviava a atenção quando tentava fazer outras coisas, mesmo estudar na segunda-feira na faculdade.
Já à noite recebo novo convite, agora uma entrevista de emprego. Estava certo que na terça iria a uma dinâmica em Jundiaí, porém este novo convite me faria retornar à minha cidade, em um hotel próximo à prefeitura. Sempre gostei de andar pelo centro, principalmente quando chega o natal ou quando fica aquele clima londrino, nublado. Desta vez, seria um prazer diferente, passear pelo centro em roupas sociais, desfilar posso dizer. Nessa terça-feira, ontem, havia na praça central um ônibus do Menina Fantástica e uma fila de garotas que sonham no futuro serem modelos.
Primeiro tomei um sorvete com meu amigo e contei a ele sobre o que acontecera na noite anterior. Ele ficou feliz, disse que sentia até mais feliz do que se tivesse sido com ele. Interessante dizer isso, pois o dia prometia um paradoxo. Eu e meu amigo, em nossa cidade, disputando a uma única vaga de emprego, eu, meu amigo e umas cinco pessoas com currículos inferiores. Meu amigo, dono da maior nota do curso e de um dos melhores, talvez o melhor, currículo de nossa engenharia entre as pessoas com quem convivo. Meu amigo, que namora uma garota que eu apresentei e que um dia eu mesmo pensei em namorar. E ele ficou feliz pelo que contei sobre a noite anterior, eu ensinei onde ficava a sorveteria, meu amigo.
Da sorveteria voltei ao centro, entrei na catedral, agradeci, olhando para a imagem no vitral, como costumo fazer quando entro lá. Observei a beleza da catedral e as palavras em latim, imaginando o que poderiam significar. De lá fui ao antigo hotel, hoje centro cultural, com exposições e, nesta semana, oficinas de instrumentos musicais. A flauta, a flauta era a que mais me chamava a atenção. Assim, digo agora o que então ocorrera na noite de segunda-feira.
Estava diante um paradoxo, participar de uma dinâmica em uma multinacional em Jundiaí ou retornar a Ribeirão e disputar uma vaga única com o cara com a melhor nota da sala, várias iniciações científicas e vários títulos e prêmios acadêmicos? Ribeirão, a mesma Ribeirão pela qual sou apaixonado, mas que teimava em eleger os mesmos políticos a décadas, a mesma Ribeirão que me expulsara de seu grupo no facebook nessa mesma segunda-feira, feito ditadura, após eu demonstrar sutilmente minha insatisfação com o resultado das eleições.
Não tenho aulas às quintas; sexta é feriado, dia das crianças e de N.Sra Aparecida (interessante, agora lembro que na terça eu explicava para minha mãe como se abreviava N.Sra, após ter pesquisado na internet; porém ainda não salvei no computador de casa umas fotos que ela me pediu, apenas aqui no note e no pendrive). Assim, parecia não haver prejuízo se eu voltasse para casa e por lá ficasse durante toda a semana. A questão era, ia na segunda mesmo ou esperava pela manhã de terça-feira. Mais uma vez, tive a paciência correta.
Estaria a garota a fim de mim? De mim? Logo de mim que nunca tive namorada? Quem nunca havia beijado além de três beijos de despedida há três anos, porém totalmente mal feitos, pois errei ao seguir o conselho de um amigo sobre como se beijaria. Mas realmente a fim de mim? Curioso é o destino. A palestra na empresa no domingo havia sido de auto-estima, contive-me em minha educação, em meu interesse pelo lugar e em meu estranhamento sobre o tema, esperava uma apresentação da empresa, não questões morais. Porém é como aprendemos no teatro, alguém apresenta algo, não criticamos, não julgamos, aceitamos a ocasião, aceitamos a coragem em apresentar, aceitamos a dedicação.
Se eu voltasse para casa, seria por uma semana, muito tempo para um engenheiro que vive seus anos de graduação resolvendo grandes problemas todo tempo, velozmente, pois dezenas, centenas de outras questões aparecem todo momento.
Fui então até uma das bibliotecas da universidade, onde passei uma manhã a tirar dúvidas de física para a prova de mestrado da garota. Raramente frequento a biblioteca da física; utilizo a da engenharia, por ser do curso e, às vezes a da química, por ser mais perto. Resolvi ir até lá, queria a encontrar e a encontrei, estudando.
Disse que fui fazer uma visita, discutimos alguma coisa de física, ela me disse que esperava por um rapaz, um doutorando em física, que lhe daria aulas particulares do tema. Foi a segunda vez que senti ciúmes; mas logo ela disse que era pago e entendi que o professor estaria lá para dar aulas. Ciúmes mesmo foi em outro instante, ao final da peça naquela outra noite, ela me disse parabéns, eu respondi com um abraço, não tão forte como de um homem que aparecera depois, mais alto, mais velho, mais forte; mais íntimo, pensei. A felicidade me veio quando comentou no encontro da semana passada, no qual discutíamos sobre as impressões causadas pela peça, que o namorado de uma amiga lhe viera retribuir o abraço – que a personagem dela dava no público. O namorado de uma amiga, então entendi.
A aula seria das 19h às 21h. Anotei seu telefone, enviei uma mensagem às 19h25min, uma mensagem bem curta, citando um lugar e um horário, 21h30min, comer açaí – o açaí foi ideia de outro amigo, um dos dois com quem me reunia na biblioteca da engenharia para fazermos um trabalho que deveria ser entregue na manhã seguinte, terça-feira. Ele é um amigo sábio, já devo ter escrito algumas vezes sobre ele, sobre eles, aqui no blog.
Fui tomar banho, enviaria o trabalho por e-mail e entregariam para mim. Ela respondeu às 21h08min, depois deu ter atendido rapidamente ao telefone quando um amigo – o mesmo que me foi comigo a São Paulo – dissera ter sido chamado a uma dinâmica – na mesma Jundiaí que deixei de ir na terça-feira, ontem.
21h08min: NOME, vc foi pro top a¿ai??
21h09min: Não ainda, mas me dirijo à rodoviária ali perto.
21h10min: Vc partir¿ q hras??!
21h11min: Amanhã só. Está com fome?
Eu ainda estava na faculdade, virei, passei pela praça, voltei à biblioteca. Ela se encontrava em outro lugar, em uma sala de vidro, passei atrás dela e a vi com o celular. Digitou alguma coisa, estava respondendo a mim.  Porém a vi aquando apagou a mensagem e começou a reescrever. Estaria em dúvida? As mulheres perfeitas também seriam meninas quando sozinhas? Também não sabem o que dizer?
Saí para que não me visse, esperei com o celular na mão do outro lado da parede – que não é de alvenaria, mas aquela repartição. Ela demorou para responder, ou estariam os segundos durando horas? Decidi entrar na sala, ela estava com fome, quis terminar de ler uns tópicos antes de ir; enquanto eu li a prova de um ano anterior.
Fomos ao açaí, pedi um sabor diferente para que ela pudesse experimentar, conversamos sobre muitos assuntos, saímos pouco antes do estabelecimento fechar. Voltamos a seu carro e ela me deixou na porta do alojamento da universidade, enquanto o rádio sugeria músicas românticas e outras músicas também.
Não me recordo de quem se referiu primeiro à lua, ela, ela quis ver a lua e eu disse ter descoberto um lugar em que desse para vê-la como no sítio, o campus da universidade vizinha, onde ela estuda. Era madrugada, mas fomos para lá. E então sentamos na grama – na segunda tentativa, depois do formigueiro da primeira – próximos a uma mata e a um prédio didático.  A lua não estava lá – ela disse que há alguns dias não a encontrava – mas havia estrelas, a grama, ela e eu. Conversamos ainda sobre muitas coisas e, após um pequeno silêncio, eu perguntei: “sabe do que tenho medo?”. Tinha medo de me declarar e então não podermos mais sentar na grama em uma madrugada, sem recordar uma recusa e viver em um clima túrbido. Disse que tinha medo de dizer que estava a fim dela.
Ela iniciou sua resposta, sua primeira palavra me trouxe à mente o início daquele modo educado de se dizer não, de dizer que somos apenas amigos. Acho que sua segunda palavra também; porém ela me surpreendeu, disse também estar a fim de mim.
E agora? Então nos beijamos, ela me ensinou a beijar, e deitou-se em meu ombro, ficamos por horas pela madrugada. Tinha meu trabalho a entregar, e ela sua prova, mas nada mais importava, nada que não fosse no plural, no nós.
                Outros minutos, hora – não sei ao certo, para mim pareceram dias – passou-se entre os bancos da frente de seu carro quando me deixara no alojamento e nos beijávamos.
                Passou-se a terça-feira. Amigo, lembranças, entrevista, hotel, catedral, centro cultural, casa, família...  Não a liguei no dia seguinte, porém deixei uma mensagem subliminar no recado que enviei ao grupo de teatro, avisando que me ausentaria esta semana – em resposta ao e-mail dela, que não frequentaria esta semana, pois a prova do mestrado se aproximava. À noite decidi aprender a tocar a flauta que minha avó me dera, há um ótimo professor no youtube. Também decidi retornar a São Carlos e para cá vim hoje pela manhã. Ela toca flauta.
                Hoje tive apenas uma aula, o professor faltara da segunda. Ou devo dizer ter tido duas, caso conte a aula de dança. Procurei por ela na biblioteca três vezes ao longo do dia. Na primeira ocasião, levava uma trufa de morango, que ficara em meu bolso até após o almoço, quando eu já constatara que havia derretido. A parte engraçada é ter guardado o celular no mesmo bolso.
                Na segunda tentativa eu ficaria a estudar por lá, porém meu touchpad decidiu não funcionar e retornei à biblioteca da engenharia. Na terceira tentativa, encontrei seu carro e agi rapidamente, num plano de repente, talvez genial, talvez não.
                Voltei à engenharia, liguei o computador, encaminhei para meu e-mail a partitura de uma música romântica que conheço, cuja banda por ela foi curtida no facebook. Fui ao xérox em uma das saídas do campus, imprimi, retirei o título e voltei para o alojamento.
                Lá, ainda em dúvida se eu deveria fazer o que planejava, procurei por uma fita adesiva – a essa hora a papelaria já deveria estar fechada – e, então, dentro de meu guarda-roupas, avistei aquele porta canetas e porta clipes que havia comprado e ainda não aberto, era embalado por uma folha plástica decorada e amarrada por uma fita de cetim, já com as pontas enroladas, em uma cor próxima ao rosa e ao bege.
                Enrolei as folhas da partitura no cetim e, para não ser visto com elas no campus e não amassá-las, guardei onde guardo a flauta que minha avó me dera. Atravessei o campus, temia não encontrar seu carro após ver algumas vagas livres. Então avistei, retirei as duas folhas da bainha da flauta, com certa dificuldade, pois o papel ficara preso por alguns instantes. Amarrei o cetim no limpador de parabrisas com as folhas enroladas e agora me encontro a contar essa história para jamais esquecer esses dias em que, como disse meu amigo na sorveteria, as coisas parecem ir tomando seu rumo e darem certo, complemento dizendo que são dias em que estou em diversos cenários, com diversas histórias, como  nos filmes, como enxergo a vida, que acontece como eu desejo.
                Abrir mão de uma vaga de emprego torna-se mais prazeroso que a conquistar, é sinal de maturidade, além disso, há uma chuva de oportunidades. Passear em São Paulo, entrar na Catedral – há um bom tempo não vou a uma missa – maravilhar-me com o centro cultural, as ruas do centro, as ruas do bairro, dirigir pela cidade, aulas, pesquisas, provas, apresentação teatral, dança, contar boas notícias, comer açaí, compartilhar açaí, olhar para o céu noturno sentados na grama, beijos no carro, braços, pescoço, rosto, boca, tocar pessoas, amar, fazer alguém feliz...



    Programo o blog para publicar este texto daqui há alguns dias, vou esperar o que vai acontecer antes de contar a notícia...



     Bem, hoje é 30 de novembro, volto ao texto, não o reli ainda, mas vim publicá-lo no blog...





























19 de outubro

19 de outubro, há vinte, vinte e um anos sinto a Terra passar por esta rotação, mas não somos mais os mesmos de 1932. Contudo o que dizem os pesquisadores daqui (da USP) quando não podem demonstrar equações aos alunos? Fé, sim, o “acredite nisso” é sinônimo científico para fé; até que, um dia entendemos os porquês. Os porquês da vida são muito mais complexos que essas outras equações; entenderei todas elas, espero que ainda em vida.


Tenho muito que fazer, muito que trazer para o mundo corpóreo, muito que aprender, que ensinar e muita saudade de quando o saber eram sonhos que você me realizava, peço que estejamos lado a lado, Feliz Aniversário vó.

O quarto festival

   A carioca Carla, em seu blog "Aqui Neste Oceano", recentemente postou a tradução de Walk On. Confesso nem ter lido toda a letra para aprender algo: "[love] is all that you can't leave behind", o amor é tudo que você não deve deixar para trás.
  Notei pois que dei conta de carregar todo o restante da bagagem, exceto tal sentimento. Ao voltar, não reencontrei o que deixei para trás. O pior, posso continuar assim.
   Sou estudante de engenharia, leitor, e um carro nunca volta. Se de frente, a quilometragem é outra, o tempo passou. Se de ré, bem, um motor não aguenta mais que algumas horas nesta marcha retrógrada.

   Voltei ao festival. Disse que não tocaria mais no assunto, mas este blog representa a avenida que nos liga a meu mundo subjetivo. Não acenderam as luzes do teatro e não a encontrei.
   Já não era tão mágico, o som desafinado, disseram ainda que é todo ano igual. Não para mim, talvez ainda mais vazio.
   Algum espaço preenchido com meu pássaro de madeira e papel e com o colega de sobrenome russo também um pouco solitário,  a conversarmos sobre seu trabalho.


   Sentado, não muito distante, o outro, ou seu outro passado, nada falei e preferi meu pássaro de madeira que teimava em acertar duas garotas de uns degraus à frente no teatro de arena.
   Não me sinto triste em estar sozinho, aliás, raramente me entristeço e encontro com quem conversar; porém sinto falta, independentemente da multidão, sua ausência, dela, de minha avó e da magia.

  Imagens: rua que leva ao Morro de São Bento; fundos do festival.

Férias...

   Acordei após sonho interessante, após livrarmos a biblioteca de assaltantes, houve chuva de pelicanos e aviões sobre a EESC, tentaram-se proteger no CAASO, mas corremos para o aloja, na manhã seguinte, a polícia ou sabe lá quem havia apagado a memória dos que ficaram, embora uma câmera digital tentasse registrar a confissão, escondida entre mãos em uma fila.
  Em um momento, lembro-me de, ao correr,encontrar algumas, muitas talvez, pessoas da faculdade, mas os que me acompanhavam no sonho eram, principalmente, meus amigos de infância.
   Confesso não saber dizer qual o melhor tempo. Hoje compramos um carro, o melhor que já tivemos, daí passamos o final de semana em garagens. E há essa graça em ser rico? Sem ir a garagens, levar nos mecânicos, estudar carro por carro à venda na cidade qual o melhor negócio? Depois ter de economizar na pizza para conseguirmos pagar as prestações do financiamento.
  Não nasci em favela leitor, mas os bigatos tomavam conta das paredes e me lembro, faz muito tempo, de uma cobra dentro de casa. Trabalhamos, estudamos, quem sabe o genro perfeito - aliás, fiquei sabendo de outra candidata a sogra essa semana. E, ao me formar, meu piso será alto.
  O curso? Retrógrado, parece se esquecer do mundo e se trancar em pesquisas que muitas vezes não saem da universidade, que, até ano passado, mal tinha como patentear suas descobertas. E acredite, é a melhor, de longe, de muito longe, melhor universidade do país.
   Por isso e, vendo a decepção da maioria dos alunos com a carga horária absurda, a falta de vida, a falta de sonhos durante as noites, que parecem servir apenas para recarregar as energias para mais dezessete horas intensas de estudo, lançaremos em breve uma manifestação, cujo cartaz desenhei ontem.
   Também inscrevi um poema em um concurso, quem sabe é publicado, mas somente daqui um ano. Daí, não posso por enquanto divulgar o cartaz ou o poema.
   Fiquemos assim, com pena de quem não pode ter férias depois de se matar de estudar e ainda ficar de recuperação, com ânimo para aceitar desafios e para aproveitar o tempo durante as "férias".  As aspas devem-se a uma apresentação na segunda quinzena e ao término de um relatório na próxima semana.
   Mais algumas impressões... Sim, as pessoas tem reclamado demais. Antes colocarei alguma imagem para evitar um texto ainda mais cansativo.


taí, uma foto de Paraty, retirada da internet.


  Não que minha vida seja a mais difícil do mundo, bem longe disso, a expectativa é ficar rico e com poder sobre alguma coisa, nem que seja sobre meu futuro cachorro, gato ou coelho de estimação. Contudo, confesso que gostaria de ver esse monte de jovem a reclamar da vida no facebook, passar meia semana na nossa sala de aula para saber o que é ter o que fazer em uma escola.
  Tive três dores de cabeça nos últimos três anos, tanto que ainda resta um comprimido na cartela com quatro que comprei lá no início de 2009 (ou minha mãe que comprou), ou minha saúde que é impecável. O mundo reclama de mais e trabalha de menos, aliás, quem passa mais tempo trabalhando tem menos tempo para reclamar. Não o contrário, trabalhar trás satisfação. Lembro que estou falando no meu caso e de meus colegas de facebook que tiveram oportunidade para ser o que bem entendessem na vida; não do pedreiro lindo que veio trabalhar aqui em casa.
   Não estranhem o "lindo" - e eu lá sei quando um homem é bonito ou feio, nem quero saber - Já com cabelos brancos, contudo, de fato ele se assemelha a um ator estadunidense; um virou ator, sabe-se-lá se fuma, bebe, faz caridade ou joga dinheiro pela janela e o outro tem de ignorar sua rinite enquanto faz aberturas em paredes levando poeira a toda a casa.
   Lá se foram várias linhas e eu sem versos maravilhosos, nem redondilhas nem decassílabos, nem entrei ainda no que pretendia falar, se é que tivesse alguma certeza do que escrever senão lembrar a mim mesmo de que o blog existe após assistir a uma cena de "As melhores coisas do mundo" em que um adolescente usa do blogspot para dizer o que sente a si mesmo, se não me engano é o tal de Fiuk o ator.
   Com centenas de horas de aula cumpridas na faculdade, "estudo" foi a palavra do ano nos últimos seis - talvez perdesse para "Fuvest" nos três primeiros  e para os nomes dos professores mais rígidos nos três recentes. Interessante esse termo, visto que hoje saiu a lista das maiores empresas segundo a Exame.
    E por falar em Fuvest, nossa professora de Literatura já anunciava lá no ensino médio que se falava de NeoBarroco para caracterizar a escola atual, não estou dizendo? Uma escola com cento e poucos caracteres.
     E por falar em ensino médio, uma amigo da época, um ano mais novo, postou foto interessante, em sépia, com sua turma. Vou comentá-la, mas antes, pretendia usar a imagem do beijo em Times Square para lembrar o que é sépia, mas só a encontrei em tons de cinza e o corel não pareceu possuir a função. Temos outra aí à esquerda.
    Mas você vai falar dela de novo? Sim, parece que sim. Inclusive escrevi uma boa síntese em uma folha de caderno entre uma prova e outra.
    Falo novamente, pois hoje é um dia especial, dia do festival, não estive lá; ela, não sei, talvez já tenha aprendido que é uma mulher e não um pokemón e tenha "dado uma passada" para comer sushi, não para gritar kame-hame-há.
    Esse é um bom momento para alguém que "leia" o texto pelas imagens se pergunte: "mas o que tem a ver a Paraty, a revista exame, a mulher do homem aranha, o cara lá de Wimbledon, o Beijo em Times Square e o Goku?"
      Bem, Paraty taí de gaiato mesmo, o restante, lendo o texto, que já deve estar cansativo e ninguém deve ter lido até este ponto. Se leu, deixe um comentário.
      Ah, meu caro leitor, pode ficar ainda mais piega, quer apostar? Vamos à síntese e, quem sabe, eu não fale mais sobre ela no blog, assim como há muitos meses (sete) não nos falamos.
    Há tantos textos em meus cadernos, agora ainda reuni o semestre todo e será difícil encontrar... Bem, encontrando-o, posto aqui. Ótima noite, senhores.

   Não demorei muito e logo lembrei-me do contexto, Portugal. Essa semana, deram-me a ideia de um Work and Travel entre amigos da faculdade no final do próximo ano ou ao termos juntado dinheiro para isso. Antes, no entanto, procurei a respeito de bolsas e, sem a dificuldade de idioma, Portugal seria uma ótima opção, embora esteja quebrado ultimamente e seja mais negócio um engenheiro vir de lá pra cá que o contrário.
    Mas logo imaginei do que sentiria saudade, da família, é claro, mas nunca fui muito bom em falar sobre sentimento dentro de casa. Dela também, chovia, pensava em Portugal, e se eu fosse à sua casa para dizer Adeus sem saber ao certo o que ela guarda de mim?

   "Chove em São Carlos, estou pensando em me inscrever na bolsa para estudar em Portugal. Mas passo por uma banca de revistas enquanto me pergunto o que aconteceria em meu mundo fora da universidade.
   Chove no noroeste da cidade, posso parar o carro encharcado em sua porta ou em frente ao festival onde o que poderia ter sido não foi; o festival, onde tiramos uma foto e conversamos pela noite.
   Mas ao encontrá-la novamente sobre a chuva podê-la-ia dizer que partirei a Portugal e veria qualquer dentre milhões de reações.
   Contudo, se dissesse não voltar tão cedo, anos talvez, pois a cidade não comportasse uma de nossas profissões, então você se lembraria daquele tempo antes de nosso último festival ou daquele tempo do Nosso festival.
   Porém quando eu parti sem me despedir, ficou um vazio, um imenso pedaço de sua vida se foi e você logo arriscou uma maneira paliativa de reocupar esse espaço.
   Ele era um bom homem, meio poeta com nome de cantor, porém foi quadjuvante e logo o deixou quando percebi que te amava. Achei que fosse por mim.
   Você sempre quis um irmão e nunca teve amigos, a não ser os mais afastados da sociedade, como os pequenos fisicamente ou os que dançam no que só vocês se importam.
    Eu tenho amigos, destaque, contudo sem saber dizer eu te amo ou sem saber beijar uma mulher.
   Acima de muitas maneiras, você é surpreendente. Em um final de semana reabriu o vazio; em outro, nos encontramos em uma calçada sobre a chuva; no terceiro, quando pensei que... Então você ocupou aquele espaço de seu sentimento com quem apenas você no mundo suportava. De fato, sou a segunda pessoa no mundo que não vê nele tantas falhas e até isso tínhamos em comum. No ensino médio, na faculdade, em nenhum outro lugar ouvi que alguém o suportasse.
   Quando sua prima bateu o carro, você procurou por mim e, embora eu não tivesse as melhores palavras, acho que se pôde sentir melhor.
   Porém, quando a pessoa que no mundo mais me amava faleceu, você lotou sua rede social de apologias ao ateísmo, no mesmo dia e às vésperas de meu aniversário.
   Teve razão em dizer não ter amigos e foi influenciada por estupidez. Quando conseguiu se tornar mais ignorante que ele, então passou para as mãos do próximo, quem sabe agora o vazio tenha sido preenchido.
   Também teve razão em dizer que a culpa não foi sua, meia razão, fico com a outra metade; até então raramente deixava de ser infantil e voltava do seu digimundo.
   E o vazio que ficou em mim é preenchido com folhas como esta ou com lembranças de quando era possível, lembranças das noites no festival e da franja em seus cabelos no dia em que esteve mais linda.
   Peço que me abrace nessa despedida, pois também me lembro, com peso nas costas, de que você me abraçava com a alma e eu com o medo ou com a vergonha.
   Um dia volto de Portugal, mas nossos mundos se distanciam e nossa mesma cidade não será a mesma. 
   Sabe aquela aventura com a qual sonhávamos na infância, e era a mesma, o mesmo cenário, infelizmente não teve o final dos contos de fadas, mas podemos ao menos agradecer pela história ter existido".


   Mas, o que eu lá sei sobre sua vida, não é mesmo? Nunca me decepcionou pessoalmente; as palavras eram doces, mas as ideias, lidas em mundo virtual...
   Esse pode ser a última postagem sobre o assunto, possivelmente não e sempre há mais a ser dito, quem sabe muito mais quando seu livro for publicado, quem sabe quando ouvir "Pra Ser Sincero", "Giz", "Van Buuren",..., quando voltar ao festival, ao colégio, quando revejo seu depoimento ainda guardado, fotos, quando caminhar a pé pela avenida,... lembro-me todo o tempo.
  
   Talvez eu tenha mesmo nascido para o mundo, negando a frase mais sábia de Einstein. Não irei a Portugal amanhã, mas passaremos uns três ou quatro meses na Europa daqui a um ano e meio, ou os quinze dias na amazônia, que fossem no Japão, tempo é tempo, distância é distância e cá estou novamente a negar a física.

Imagens: Paraty, ilhaverde.net; Wimbledon, giselepedrosa.blogspot.com; Melhores e maiores, dinap.com.br; Beijo na TimesSquare, pimentacomlimao.wordpress.com; Sepia, photoshopgirl.com; Goku Criança, mundodragonbol.webnode.com.br; Torre de Belem, wikipédia.

Onde se encontram milagres


O céu amanheceu branco na fria cidade de São Carlos do Pinhal, o ar porém me era transparente e rosa das gotículas de água congelada e das flores que choviam dos ipês. Quinto dia de Julho do ano de 2011.
Antes, todavia, que analisasse a cor do céu, levantei-me de minha cama no alojamento da universidade, sozinho no quarto. Não tão sozinho na cidade pois alguns amigos também fazem iniciação científica nesta primeira semana de férias.
Ontem à noite fomos ao coral em um anfiteatro da Embrapa, onde conhecemos o Cancioneiro de Uppsala, músicas gregorianas, músicas de Caymmi e Nascimento. Ao tomar banho naquela noite me vi a cantar minha versão rep-tenor de Jesus Cristo de Roberto Carlos, Sentinela de Nascimento, Pelos Prados e Campinas, Legião e outras mais.
Sob o chuveiro então, lembrei-me do sonho de Valéria após pedir inspiração, uma luz a Deus por não se sentir útil; em uma sacada, quem sabe um mirante, um horizonte, um horizonte infindo, lindo e uma melodia. O namorado de sua filha aproxima-se feito um anjo de Brad Silberling, ela diz: “Há muito tempo, do lugar de onde venho, havia um cantor com uma música que me lembra muito essa”; o anjo então sorri como quem diz “é esta” e então eles ouvem: “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu Estou Aqui”. Valéria conclui, ele é a luz.
E tenho de viajar mais alguns anos, para algo próximo a mil novecentos e noventa e dois, em uma rua deserta em um matagal antes do nascimento do Jardim Califórnia em Ribeirão Preto, SP, região inóspita onde um casal chorava e tentava correr para que chegassem a tempo ao primeiro dia do novo emprego; a estrada era deserta e carregavam pesos, porém pediram uma luz a Deus e Ele os enviou um anjo, como de lugar algum, parou seu carro e ofereceu carona.
Ao acordar hoje de manhã me viera essa história real e como que em um sonho, quando não nos lembramos de como ou quando começamos a pensar naquilo, imaginei um outro casal e eu a parar o carro, vinte anos depois, o filho do primeiro casal. Perguntava-me o que poderia dizer, talvez não dizer nada e me passar por um anjo. “Obrigado, tome”, “Senhor, de onde venho esses papéis de nada valem”.
Escovei os dentes vendo esse episódio, tomei leite e então vi o branco céu pelas sete horas e uns quarenta e tantos minutos. Cruzei a praça, o sebo fechado, encontrei duas livrarias que não me conseguiram ajudar, bancas, mercadão, já havia percorrido as bibliotecas da universidade, mesmo no instituto de pesquisa em um casarão antigo. Na cidade com a maior concentração de doutores em ciências exatas, não conseguiria eu um livro para meu relatório?
Pensei em voltar para casa, em minha cidade lá há livrarias maiores nos shoppings, mas preciso voltar para cá em apresentações. E se ligasse ao Sillicon Valley? Internet não é bem vista em referências, além disso, estou sem acesso à rede entre às 18h e as 8h.
Avisto a catedral ao voltar, do outro lado da rua uma casa umbanda. Pensei: “só me falta entrar ali. Meu Deus, me ajuda. Mas, como é mesmo o nome dele? Tião dos Canaviais”, com quem tive  o primeiro contato em um terreiro, após muitas idas sem que ocorresse reunião.
Concomitantemente, belo advérbio, olho para minha direita, para cima, vejo livros em prateleira por de trás de um vidro, viro o quarteirão, entro. “Onde consigo livros sobre a história da computação?”. E a senhora me responde “terceiro andar”.
Subo, percorro quase todas as prateleiras, pergunto. “Só temos alguns ali naquele canto, mas são bem antigos, não deve ter o que você precisa”. Na última coluna, da última prateleira, após abrir todos os livros da coluna, encontro exatamente o que preciso. Obrigado.
Por que é tão difícil acreditar em milagres? Eu creio.

Vó, ó o homem do queijo

   Toca a campainha, mas já pressentia ser o homem do queijo. É junho, dia de São João; sei que ainda há ruas enfeitadas no interior das periferias mesmos nesses tensos tempos corridos. Vivo no início do bairro e sinto que virado para o centro ou para dentro dos cômodos da casa a estudar para as últimas provas desse semestre, o mais difícil na vida acadêmica da maioria dos alunos de nossa turma lá na universidade, curso de engenharia.
   Mas eu atendi à porta pacientemente e escolhi dois saquinhos, doce de leite e bolachas com goiabada; queria dizer para minha avó que havia comprado os doces, disse a ela, embora eu não saiba como são os gostos para os que já desencarnaram.

   Descobri que não somos os únicos absurdamente atarefados. A palavra férias transformou-se em sinônimo de esperança ultimamente e junto aos doces relembrou-me de uma de minhas, nossas, primeiras conquistas de escola. Trabalho de férias no pré, copiar várias páginas e tomar ditado.
   Todos as tardes, em um horário marcado, minha vó então me ajudava. Como eu não sabia do ditado, tivemos de fazer todos na última semana e, embora eu supusesse que não daria tempo, conseguimos. 
   Três provas na semana que vem (ou cinco, depende de um professor que não liberou as notas), um relatório final de iniciação científica, ajudar meu pai em um evento no domingo, aproveitar o único final de semana de meu melhor amigo de volta à nossa cidade natal, viver o mundo, vencer, respirar.
    Vó, comprei doce, podemos fazer tudo certinho e ainda assistir à sessão da tarde; dia de São João, alguma quermesse, ruas enfeitadas, interior do bairro, homem do queijo... Férias, sinônimo de esperança nesses tensos tempos corridos.

Imagem: Candy seller. Norway Railroad Station, Disponível em http://popartmachine.com/item/pop_art/LOC+1422820/CANDY-SELLER.-NORWAY-RAILROAD-STATION-LC-B21-...

Meia hora para o dia das mães

   E o primeiro segundo domingo de maio sem a presença corporal daquela que me criou junto a meus pais.

   Foi no final de outubro, às vésperas de meu aniversário, quando nós completaríamos 20 anos juntos ou já eu fosse parte dela antes de meu pai nascer. Assim também eu passava todo réveillon, a seu lado e, antes de dormir, depois de repetir centenas de "ba noite vó", ainda emendava algo, pois a última palavra não devia terminar com "o", porque eu achava que os filmes sempre terminavam com essa letra.
   Iria com o pessoal da faculdade ao salão do automóvel na sexta, depois viria um grande feriado e eu queria passar mais tempo com ela. Eu e minha meu tempo corrido da graduação uspiana, mas a menos em meu aniversário, gostaria de passar lá.
   Mas eu estava na fila do xerox com meu colega de ou ex-colega de quarto e meu cunhado apareceu de mãos dadas com minha irmã, vindo lá de nossa cidade há pouco mais de cem quilômetros, então eu sabia o que havia acontecido antes dele me dizer e por algum motivo eu estive preparado, meio que esperando a notícia, a música que mais havia passado por minha cabeça nos dias antes era de Elton John para a Diana e naquela distinta madrugada já me haviam dito em sonho e eu, não sei por que tão sensato aceitei. Mais que isso, convencia minha família a não chorar. Contudo sinto como se tivesse tido o poder para mudar isso. Foi na madrugada que ela desencarnou; enquanto eu dormia, via alguns familiares e me culparei eternamente pela única frase que me lembro naquele pesadadelo "morreu morreu" disse como quem diz "perdeu perdeu" a torcedores tristes eliminados de um torneio mundial. Ela inventou a expressão "como quem diz" ou me ensinou qualquer expressão que eu sei.
   O ensino médio feliz me esquecera como se chora, mas as flores da empresa onde meu pai trabalha, simbolos de um reconhecimento, de ter conseguido vencer na vida de quem mais fez foi trabalhar... E eu, seu filho, pessoa que ela mais ama e mais importante para ela, sou resultado de sua vontade.
   Contudo ela mesma me ensinou a não chorar. Então quem sabe não lágrimas, mas palavras ou conquistas lhe demonstrem o quanto sou fruto da mãe de toda essa família. Onde estiver, vó, tenha um feliz dia das mães.

   Boa noite, vó, té amanhã.

Habacuque

   Ao ter sido sequestrado, levaram-me à zona leste, em um bairro imenso cercado por muros que formavam uma espécie de labirinto, ainda que muito maior na dimensão longitudinal.
   Libertei-me e fui com uma garota atravessar o muro até que chegamos a um estabelecimento com alguns produtos caros, perfumes, artesanatos. Lá passamos muito tempo, conversando com a vendedora, talvez por medo de sair. Meu pai então nos encontrou em tal lugar pouco visitado.

"Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes"
Shakespeare

 A Liturgia do 33º Domingo comum, ano C, conversou comigo. O que é sentir-se só, sobrecarregado, injustiçado? Habacuque não estava entre as leituras, mas ao procurá-las na internet, encontrei esse nome, que significa abraço. Encontrei também a seguinte frase:
 “Eu é que vos darei respostas” – Lc 21,5-19
   Ao voltar do Corso, cujas impressões deixei há duas postagens. Um amigo, veterano do alojamento de estudantes, ao ver-me com sede ofereceu um pouco de seu suco, algum tempo depois uma amiga pediu para que eu esquentasse leite também para ela. Habacuque significa abraço, nunca abracei esses amigos, mas voltei à cozinha com essa intenção, no entanto falamos de outros assuntos, pois naquele momento havia outros presentes e confesso que me senti estranho em arriscar um beijo de boa noite.
   Ainda assim, tais afetos berram para que ocorram, para que meus cabelos não caiam nesse final de semestre.

"Pois é preciso que essas coisas aconteçam primeiro (...)-  Resolvam desde já que não vão ficar preocupados, antes da hora, com o que dirão para se defender. Porque eu lhes darei palavras e sabedoria que os seus inimigos não poderão resistir, nem negar. (...) Todos odiarão vocês por serem meus seguidores. Mas nem um fio de cabelo de vocês será perdido. Fiquem firmes, pois assim vocês serão salvos."


"Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e meu fardo é leve."
Mateus 11: 28-30

Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado;
Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação.
O SENHOR Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas. 
Habacuque

   Queria também deixar uma frase, não é de minha autoria, pois muitos já devem ter dito:
"Não desista de ser bom"
   Ainda que você não pareça lucrar no "aqui e agora" ou em algumas outras definições do presente.

   É a semana do Teatro em Ribeirão, acho que a primeira e meu antigo diretor - e professor - apresentará uma peça. Infelizmente não planejo ir pois quando fora dos estudos ou culpando-me por não estar neles, estou aqui ou nos cadernos a escrever. Agora, nesta avenida, na Av Lisir Eva, localizada dentro de casa, na magnífica paisagem do "Meu Lugar", conceito que muito devo a meus professores daquela família do Teatro.
Imagem: http://fatosvida.blogspot.com

Hallowmas

"(...)Rae, este é o último dia especial de comemoração a cada ano que estarei com você, tendo aprendido o que aprendi com os nossos amigos, os pássaros.
Não posso ir ao seu encontro porque já estou com você.
Você não é pequena porque já é crescida, brincando entre suas vidas como todos fazemos, pelo prazer de viver.
Você não tem aniversário porque sempre viveu; nunca nasceu, jamais haverá de morrer.
Não é filha das pessoas a quem chama de mãe e pai, mas companheira de aventuras delas na jornada maravilhosa para compreender as coisas que são.
Cada presente de um amigo é um desejo por sua felicidade. É o caso deste anel.
Voe livre e feliz além de aniversários e através do sempre.
Haveremos de nos encontrar outra vez, sempre que desejamos, no meio da única comemoração que não pode jamais terminar."

Richard Bach


   Há algum tempo não posto e te enganas se pensaras ser por falta de história, porém, por falta de palavras. Alguns acontecimentos se passaram, como meu vigésimo aniversário e amanhã será o primeiro dois de novembro em que seu feriado me faz sentido.

Novamente os labirintos

   O vidro não estraçalhou, empurrei-o inteiro para fora do ônibus. Duas vezes, o primeiro não foi suficiente para salvá-la; o segundo, maior, chutei-o, com esse mesmo tênis que estão acostumados a me ver e então saltamos para fora do ônibus e começamos a fugir.
    Labirintos, muitas vezes já o enfrentei, muitas vezes já me escondi, muitas vezes já curti seu cenário.
   Festas, segredos, mistérios e corrida; já corri para labirintos e já corri de labirintos. Estavam atrás de nós, de nós homens, queriam acabar com todos, mas eu escapei e fugi, escondi-me por muito tempo entre passagens estreitas. Há passagens no solo detrás do balcão, (um grande amigo me viu e deixou-me escapar daqueles que me perseguiam) há passagens em vários lugares e algumas pessoas em quem confiar.
   Escondia-me e lutava e lutava e corria. Chegaste alguma vez a encarar o perigo real? E ali, em escola, laboratórios, labirintos, mistérios. Escondem algo de nós?
   Em especial, alcançar aquela fronteira, aquele muro, aquela grade e saltar por ela. Ela, uma amiga, acompanhou-me e sabíamos de correr, já de vagar, nem mais a dor do cansaço, apenas seu efeito de lentidão, mas corríamos.
   Parecia saber em quais podíamos confiar, mas tínhamos de deixar aquela cidade. Finalmente saltamos pela grade, escondida atrás do instituto, em lugar pouco frequentado do campus. Fugimos. Temo em contar algumas coisas, ao menos por aqui.


Imagens: DeviantArt: Labyrinth by polarimpress / Maze by lostknightkg / Rusty Maze by xportebois / Persecution by alexiuss

Prefácio, parte II

   Caríssimos, embora não tenha realizado tantas viagens, ainda assim, creio que será muito difícil dizer quando esta história começa.
   Dizem que, certa vez, houve grande fenômeno e que, por conseguinte havia apenas um homem vivo por toda a região e uma mulher deitada sobre suas costelas, a qual renasceu. Disso, a crença, por muito tempo, de que teriam sido os primeiros da humanidade. Embora lá, no extremo oriente, onde essa história não tem, a princípio, tão próxima relação, outros já caminhavam, guerriavam e amavam.
   Dizem também que um dilúvio reiniciou a vida na região, de uma forma ou de outra, a humanidade conseguiu se reerguer e se apresentar como a conhecemos hoje (e haja visto que a parte menos difícil é conhecer por observação o hoje, o que talvez não implique em correto conhecimento).
  
   Peço, pois, perdão aos senhores, contudo iniciarei essa história no ano de 1914 com o assassinato de Francisco Ferdinando arquiduque do Império Austro-Húngaro.  No tempo devido, tratarei de Septimus (imagem), não isentando este texto de seu início, ou, ao menos, do que foi salvo dentre os primeiros episódios

Trilhas sonoras dos grandes filmes


  Esta lista poderia se estender, contando com Titanic, Karate Kid, Singin' in the Rain, Super Man, Robin Hood e tantos outros, todavia estarei privilegiando, nesta postagem, trilhas calmas, sem letras, ou, no máximo, com letras em idiomas exóticos (para nós). Eis aí, portanto, com vídeos retirados do youtube.





Gone With the Wind

A camisa era emprestada, há pouco descobri. Um arrozal, na pequena cidade de... Num dos mais belos e importantes episódios de nossa história.





The Man in The Iron Mask, essa arrepia

Gladiator

Chariots Of Fire, quero assistir a esse filme









   Gostou? Basta googlar e encontrará mais trilhas e filmes.

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